Temida pelos
alunos, a reprovação na escola também é
impopular entre educadores brasileiros. Em 2011, o Ministério da
Educação (MEC) sugeriu que as escolas não reprovassem
alunos nos três primeiros anos do ensino fundamental. Mesmo antes
disso, porém, a prática já era adotada informalmente
por alguns Estados.
Desde os anos
1980, movimentos nesse sentido começaram a tomar forma na tentativa
de descontinuar uma cultura de reprovação presente na
sociedade e aplicada à educação. Ainda é cedo
para avaliar os resultados dessa medida de 2011, mas especialistas
são a favor da aprovação automática. Eles
defendem mudanças que garantam um melhor desempenho entre os
estudantes.
`Reprovar uma
criança não ajuda em nada para melhorar sua autoestima ou sua
vontade de estudar. Pelo contrário`, observa o professor
emérito da Faculdade de Educação da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) Miguel Gonzales Arroyo. Para ele, a
reprovação é uma medida antipedagógica e
antiética, já que muitas vezes a nota abaixo da média
ocorre somente em uma matéria, mas o aluno é obrigado a
estudar todas novamente. A diretora executiva do movimento Todos pela
Educação, Priscila Cruz, explica que ainda hoje, a ideia de
que escola forte é aquela que reprova está muito presente
entre os pais. `No nosso imaginário, tem sido difícil de
mudar. Nunca é fácil combater questões culturais`,
afirma.
Contudo, de nada
adianta passar todo mundo sem que o conteúdo seja aprendido, destaca
Priscila. `Temos que acabar com a reprovação sem que isso
reflita na qualidade`, diz. Para ela, o desafio do Brasil é
justamente combinar esses dois elementos: aprovação e
qualidade. Arroyo vê como ideal um sistema capaz de avaliar as
lacunas que ainda devem ser preenchidas enquanto o aluno cursa a
série seguinte - como se fosse uma disciplina em dependência.
Além disso, estratégias de garantia de aprendizagem, como
oferecer assistência a quem tem mais dificuldades e aulas de
reforço ao longo do ano todo podem, prevenir que um estudante seja
reprovado e se torne um candidato à evasão.
Para o professor
especializado na área de políticas públicas da
Faculdade de Educação da Universidade de Brasília
(UnB) Remi Castioni, a medida é acertada. `A
reprovação é extremamente danosa no bloco inicial`,
considera. O especialista explica que o alto índice de
reprovação brasileira pode ser influenciado pelo fato de que
muitas crianças chegam à escola aos seis anos sem nenhuma
formação anterior, ou seja, sem passar pela
educação infantil. A baixa cobertura da rede de creches e
pré-escolas diminui inclusive a chance de conclusão do ensino
médio. Segundo Castioni, quem frequenta a educação
infantil tem chance 30% maior de cursar até o fim do ensino
médio. Por isso, ele defende investimentos nessa área. `Isso
traz benefícios para a trajetória do aluno`, avalia.
Brasil é um
dos países que mais reprova
Segundo a
Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Brasil tem
uma das mais altas taxas de reprovação da região.
Contudo, nos últimos anos já se observa uma
diminuição significativa na repetência dos alunos
brasileiros, antes mesmo da recomendação governamental de
2011. O País teve a maior redução no índice de
repetência escolar nos primeiros anos do ensino fundamental entre os
países da América Latina e do Caribe - de 24% em 1999 para
18% em 2004. O diagnóstico está registrado pelo Global
Education Digest (GED) 2012, relatório divulgado em novembro de 2012
pelo Instituto de Estatísticas da Unesco. Além dos dados
brasileiros, o documento traz um panorama global da educação
em relação à repetição de séries
e evasão escolar.
Em 2010, 32,2
milhões de alunos repetiram de ano no mundo (em 2000, esse
número era de 34,7 milhões de estudantes) e 31,2
milhões deixaram a escola antes mesmo de concluir a
educação primária - definição da Unesco
para a faixa que, no Brasil, vai do 1º ao 5º ano do ensino
fundamental. A redução de 7% é exaltada no
relatório (divulgado em novembro do ano passado), principalmente
porque as matrículas nessas séries cresceram 6% no
período (de 654,8 milhões para 691,3 milhões). Do
total dos repetentes, o maior número está na África
Subsaariana (35%). A América Latina e a região do Caribe
concentram 17% desses alunos, onde a expectativa para a conclusão de
todo o ensino fundamental é de 9,5 anos (quase um ano dedicado a
repetir alguma das séries).
Para financiar
esses estudantes, os governos também precisam abrir os cofres. No
Brasil, estima-se que aproximadamente 9% dos custos com
educação básica sejam destinados a dar suporte aos que
são reprovados na escola. Além disso, o impacto também
pode recair sobre a autoestima de crianças e adolescentes,
atrapalhando seu progresso acadêmico e podendo levar ao
abandono.
O relatório
defende o sistema de aprovação automática como
mecanismo para diminuir os índices de repetência,
condição apontada como uma das razões para a
evasão. Segundo o documento, essa prática não pode ser
diretamente associada ao desempenho do aluno, uma vez que países com
educação de alta qualidade como Finlândia, Noruega e
Islândia aplicam o sistema, enquanto outros como Bélgica,
Canadá, Países Baixos e Estados Unidos impõem a
repetição caso o aluno não atinja as médias. O
GED ressalva, contudo, que o progresso individual de um aluno pode ser
impactado por essas políticas. No sul e no leste da África,
por exemplo, crianças que nunca repetiram de ano têm mais
chances de obter melhores resultados em disciplinas que envolvem leitura ou
matemática. Já o progresso de quem ficou pra trás
costuma ser mais lento.
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