Daniel Cara - Revista
Educação - 19/02/2013 - São Paulo, SP
No final de 2012 o
Governo Federal cedeu à pressão da sociedade civil e,
corretamente, assumiu a necessidade de investimento equivalente a 10% do
PIB em políticas educacionais como meta do novo PNE (Plano Nacional
de Educação). O debate, que acontece agora no Senado, recai
sobre um novo dissenso: o destino dos investimentos. O dinheiro deve ir,
exclusivamente, para as escolas públicas ou será permitida a
transferência de recursos públicos para o setor privado da
educação?
Considerando-se
que o Poder Público brasileiro oferta (em redes próprias)
mais de 40 milhões de matrículas da Educação
Básica (quase 90% do total) e gere, com larga vantagem, as melhores
instituições de ensino superior, é lógica a
defesa da destinação exclusivamente pública do recurso
público.
Ademais, para a
imprescindível reestruturação do magistério,
é preciso aumentar substantivamente o orçamento das
políticas públicas educacionais. Ou seja, transferir recursos
púbicos para o setor privado diminui as chances de uma real
valorização do professorado, responsável por educar
diariamente mais de 40 milhões de brasileiros e brasileiras.
Uma
referência bastante prática desse fato pode ser
extraída dos estudos sobre o custo do PNE realizados pela Campanha
Nacional pelo Direito à Educação e pelo Prof. Nelson
Cardoso Amaral (UFG). Ambas as análises demonstram a necessidade de
investimento equivalente a 10% do PIB exclusivamente para a
educação pública. Utilizando os parâmetros dos
estudos, é possível calcular que o salário inicial do
magistério alcançará, apenas no final da
década, um valor próximo daquele estimado pelo piso do Dieese
(Departamento Intersindical de Estatística e Estudos
Socioeconômicos).
O Piso do Dieese
determina o quanto um trabalhador deve receber para ter todas suas
necessidades de consumo devidamente atendidas, com um padrão
mínimo de qualidade de vida. Em janeiro de 2013, esta espécie
de salário mínimo justo ou adequado, equivaleu a R$ 2.675.
Já o piso do magistério para esse ano será de R$
1.567. Dito de outra forma, empreender um valor equivalente a 10% do PIB em
educação pública é urgente, mas
representará apenas um primeiro passo (ainda que
imprescindível!) rumo à valorização
profissional dos educadores.
Afora tudo isso,
como bem defendeu o então deputado Florestan Fernandes nos debates
constituintes, investir dinheiro público em escola pública
é também uma questão de justiça social.
Não apenas porque a esmagadora maioria da população
brasileira estuda em estabelecimentos públicos, mas também
porque é essa esmagadora maioria que mais contribui,
proporcionalmente, com o bolo tributário.
Segundo o Ipea
(Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2008, as
famílias que acumularam renda mensal de até 2 salários
mínimos, pagaram 53,9% de sua receita em tributos. Já aquelas
que somaram mais de 30 salários mínimos, pagaram apenas 29%
de sua renda mensal em tributos. É uma realidade vergonhosa.
Essa gritante
desigualdade de incidência e esforço tributário deve
obrigar a sociedade brasileira a pensar na outra grande questão de
2013: quais serão as fontes de recursos para
viabilização do PNE?
Muitos estudos
começam a mostrar que os recursos advindos dos bônus,
royalties e participações especiais do petróleo
não serão capazes de viabilizar um montante equivalente a
4,7% do PIB, total necessário para alcançarmos, em uma
década, a meta de 10% para a educação pública
constante do novo PNE. Afinal de contas, segundo o MEC (Ministério
da Educação), o Estado brasileiro já dispende um
volume equivalente a 5,3% do PIB em educação
pública.
Como a
educação não pode, nem deve, desperdiçar
recursos; além do dinheiro do petróleo, se faz
necessário o país buscar outra fonte de financiamento para as
políticas públicas educacionais.
Diante da
desigualdade na contribuição tributária, seria mais do
que justo regulamentar o imposto sobre grandes fortunas, destinando 18% de
seu montante para a educação pública. Outra
alternativa, desde que acompanhada de forte controle social, seria a
criação de uma contribuição social sobre
grandes fortunas, investindo toda sua receita em educação
pública e no SUS (Sistema Único de Saúde).
Dizem, com
razão, que é quase impossível tributar mais e melhor
os (muito) mais ricos. Mas também não há dúvida
de que se trata de um caminho promissor, justo e eficaz para viabilizar o
financiamento adequado da educação pública. Vale a
pena tentar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário