José Otávio Costa Auler
Junior - Folha de São Paulo - 18/02/2013 - São Paulo,
SP
No momento em que
projeto do governo paulista propõe novas regras para o acesso
às universidades públicas estaduais, devemos analisar qual
é a finalidade e o papel das mesmas em uma nação que
pretende se inserir num mundo globalizado e competitivo.
Não
há dúvida de que políticas de inclusão social
são importantes. Mas devemos levar em conta que as universidades e
as unidades que as compõem são diferentes em sua
vocação. Em linhas gerais, temos as
instituições técnicas, as corporativas, as abertas, as
de pesquisa e as de formação.
No caso das
universidades de formação, cujo foco é a
graduação, a proposta de ampliação das cotas de
acesso para 50% das vagas, com a criação paralela de cursos
suplementares para melhorar a qualificação dos ingressantes,
poderá se mostrar viável, uma vez que os recursos destinados
a esses centros já são prioritariamente investidos na
graduação.
No entanto, para
as universidades de pesquisa, também conhecidas como de classe
mundial, a situação é outra. Por serem
instituições acadêmicas complexas, que geram grande
parte da informação científica e alimentam o
desenvolvimento de uma nação através da pesquisa de
ponta, são estratégicas para o Estado e minoria dentro do
quadro universitário.
Para
alcançar o justo reconhecimento, necessitam de corpo docente
altamente qualificado, de financiamento público e privado, de ampla
autonomia nas suas questões acadêmicas e gerenciais e de um
corpo discente apto.
A
concentração de talentos tanto no corpo docente quanto
discente é um dos ingredientes mais importantes de uma universidade
de classe mundial. No Brasil, algumas universidades caminham para se
enquadrar nessa categoria, como a Universidade de São Paulo, que
já figura entre as cem melhores do mundo em alguns rankings,
atingindo o seleto grupo das 50 melhores em determinadas áreas do
conhecimento.
Nesse sentido,
acreditamos que a nova política tenha um impacto negativo na
qualidade dos alunos selecionados, forçando as
instituições a uma mudança no seu foco principal, com
a destinação de recursos e esforços para absorver
estudantes ainda necessitando de reforço de conhecimento e
habilidades. Os efeitos negativos serão sentidos após alguns
anos, podendo acarretar prejuízos irreparáveis.
Atualmente, a
porcentagem de matrículas dos oriundos da rede pública
é diferente nas três universidades. Em 2012, a USP recebeu
3.048 alunos oriundos da rede pública, a Universidade Estadual
Paulista (Unesp), 2.843 e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
1.088. O número ainda varia de curso para curso. No caso da USP, em
medicina, direito, odontologia, engenharia, arquitetura, jornalismo e
audiovisual, a porcentagem desce a valores inferiores a 20%.
Paradoxalmente,
existem cursos superiores tão precários que um terço
deles foi reprovado pelo Ministério da Educação (MEC)
e, portanto, não estaria teoricamente capacitado para atender a
demanda de jovens que buscam uma formação
universitária.
O ponto de partida
para resolver o paradoxo é o investimento forte nos estágios
iniciais do ensino público e nas universidades de
formação. A flexibilização do acesso por
parcela de cotas de acordo com sua missão,
classificação e identidade institucional reforçaria
essa mudança.
Com isso,
teríamos a integração da excelência com
diversidade, efetivando a inclusão social com que todos sonhamos,
permitindo às universidades que estão se dedicando a ser de
classe mundial obter essa conquista, tornando-se cada vez mais
indispensáveis e estratégicas para o desenvolvimento do
país.
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