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domingo, 8 de setembro de 2013

A educação na ponta do lápis


08/09/2013
Se as coisas vão mal na educação gaúcha, com índices de desempenho estagnados no Ensino Fundamental e em decadência no Ensino Médio, não é por falta de bons exemplos. Dentro e fora do Rio Grande do Sul, em lugares tão distintos como um pequeno município encravado na Serra ou um Estado do tamanho de São Paulo, gestores e educadores apostam em soluções capazes de apontar caminhos para superar a letargia.Nas últimas décadas, o Estado vem ficando para trás nos indicadores, enquanto outros rincões avançam. Ano após ano, os gaúchos testemunham um processo de fragilização da escola: crianças não aprendem a ler e a escrever quando deveriam, e adolescentes finalizam os estudos com graves lacunas no aprendizado – ou, o que é pior, nem terminam.
De 2005 a 2010, segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), os gaúchos foram os que aplicaram o menor índice de recursos próprios no sistema de ensino. Na média, o percentual destinado à área não passou de 18,79% – sendo que o mínimo exigido por lei é 25%.
Nos últimos dois anos, as receitas aumentaram, com taxas de 28,26%, em 2011, e de 29,91%, em 2012. Mesmo assim, males crônicos persistem, entre os quais a dificuldade do Rio Grande do Sul em pagar o piso nacional do magistério.
Embora o atual governo ofereça reajustes escalonados que somarão 76,68% (com aumento real de 50%) até 2014, a briga com o Sindicato dos Trabalhadores em Educação (Cpers-Sindicato) parece longe do fim. Para se ter uma ideia do tamanho da contenda, desde 1979 a rede estadual soma mais de 500 dias de greve. O resultado não poderia ser outro se não a queda na performance dos alunos.
Mas nem tudo está perdido. Há oásis dentro desse cenário árido, e muitos estão próximos de nós, à espera de um olhar mais atento. É o caso da Escola Municipal Giuseppe Tonus, em Vista Alegre do Prata, na Serra, que superou em 2011 a meta do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) prevista para 2021 e assumiu o topo do ranking estadual nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Outro destaque é Araricá, no Vale do Sinos. Há alguns anos, a prefeitura vem dando prioridade à Educação Infantil. Acabou se tornando líder estadual no atendimento a crianças de zero a cinco anos, ao passo que outros 117 municípios, até 2011, sequer ofereciam matrículas em creche.
Há também iniciativas de outros Estados, como Santa Catarina e São Paulo, que podem ser adaptadas à realidade rio-grandense. Os catarinenses estão entre os que mais avançaram nos indicadores educacionais desde 2005, e os paulistas conseguiram reduzir a taxa de abandono no Ensino Médio para 4,6% – a menor do Brasil.
Em comum, todas essas ações têm algo que, em teoria, parece simples: fazer o básico bem feito.
– Muitas ideias podem e devem ser aproveitadas. Às vezes, não precisa muito. Basta uma nova postura do professor e do gestor – afirma Fernando Becker, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Acostumada a correr o Brasil à frente do Movimento Todos Pela Educação, a diretora-executiva da entidade, Priscila Cruz, está convencida de que a resolução de grande parte dos problemas passa por maiores investimentos, sim, mas também por medidas simples, "sem pirotecnia".
– Isso vale especialmente para os gaúchos, que, além de tudo, têm uma vantagem enorme em relação a outros Estados: a qualidade dos seus professores – sintetiza Priscila.
Quanto à questão financeira, ampliar as aplicações é parte do processo, mas não é tudo. Tão importante como injetar recursos, avalia o economista Valdemir Aparecido Pires, do Departamento de Administração Pública da Universidade Estadual de São Paulo Júlio de Mesquita Filho (Unesp), é melhorar a capacidade de gestão. Uma ideia que deu certo em um determinado local tem tudo para funcionar em outro, mas o sucesso depende de como é implementada.
– O grande desafio não é apenas botar mais dinheiro, mas saber usá-lo. O que precisamos é gastar melhor – resume Pires.

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