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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Escola digital desafia ‘professor analógico’

 
03/04/2013
Além de diferença de gerações entre alunos e professores, formação de docente não contempla a tecnologia na sala de aulaPaulo Saldaña
A ideia de "professores analó­gicos" em escolas com "alu­nos digitais" sempre volta à tona quando o debate é a che­gada da tecnologia na sala de aula. A diferença de gerações é essencial nessa relação, mas há uma crise que cabe princi­palmente ao poder público re­solver: a formação dos docen­tes ainda não contempla essa nova realidade e desafios.
As lacunas de formação que faz com que professores che­guem às escolas já defasados em relação ao uso da tecnologia são sentidas pelas secretarias de Educação. "Graduações e licen­ciaturas atualmente em seu cur­rículo tratam a tecnologia e seus recursos de maneira superficial, pois aformação desses profissio­nais dá-se a partir de embasa­mentos teóricos, não relacionan­do a prática com a real função das tecnologias na educação", diz a presidente do Conselho Na­cional de Secretários de Educa­ção, Maria Nilene da Costa.
A educadora ressalta que a presença de recursos digitais vem avançando nas escolas do País, com projetos do Ministério da Educação (MEC) e também das esferas estaduais - o que pressio­na o professor. "O docente que está iniciando a carreira ainda se depara com dificuldades de inse­rir o uso das tecnologias e recur­sos midiáticos de maneira interdisciplinar, reproduzindo ainda as aulas tradicionais."
O maior desafio, para a presi­dente da União Nacionais dos Di­rigentes Municipais de Educa­ção (Undime), Cleusa Repulho, é incorporar a tecnologia desde a formação inicial. "A tecnologia não está integradas nas faculda­des e na sala de aula, é notória a angústia dos professores", diz ela. "O segredo é fazer com que todos os professores entendam que isso é importante." Cleusa lembra que cabe ao MEC induzir de políticas públicas. A pasta in­formou que pretende oferecer capacitação a todos os cerca de 500 mil professores do ensino médio nos tablets que está distri­buindo. Os cursos, voluntários, têm duração de quatro a seis me­ses e são semipresenciais.
Apesar de receber críticas so­bre a distribuição de tablets sem que houvesse uma plataforma específica para seu uso, o ministro Aloizio Mercadante tem mostra­do preocupação com a formação. Em entrevista ao Estado pu­blicada ontem - quando se reve­lou que o ministério trabalha na criação dessa plataforma -, Mercadante reafirmou que a capacitação dos professores é a prioridade. O ministro já repetiu algu­mas vezes que os estudantes es­tão no século XXI, enquanto pro­fessores, no século XX.
Diferenças. Além de achar a  comparação infeliz, o professor Nelson Pretto, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ressalta que a diferença de gerações entre professor e aluno sempre existiu e não é tão problemática. "O aluno é jovem e por natureza  traz a novidade, o desafio. Se um dia for muito diferente é que tere­mos de nos preocupar."
Especialista em educação e comunicação, Pretto concorda que a formação inicial precisa ser transformada, para que não se dependa tanto da capacitação em serviço. "Necessitamos de uma revolução na formação, mas ela tem de ser acompanha­da por uma revolução nas condi­ções de trabalho e salário. Não é possível termos tantas expectati­vas com a educação sabendo as condições dos professores."
Professor da escola municipal Guiomar Cabral, de Pirituba, zo­na oeste de São Paulo, André Bas­tos, de 41 anos, lembra que apren­deu mexer no Power Point, pro­grama de apresentações, porque um aluno o ensinou. Mas para ele, isso só pode ser positivo. "A educação é uma via de mão du­pla, eu tenho de tirar vantagem disso. O bom é que o aluno fica ainda mais protagonista", diz ele, professor de português há 20 anos. "E esse é um desafio per­manente do professor. Ele sem­pre entra na sala sem saber onde uma pergunta vai levar a aula." / COLABOROU CARLOS LORDELO

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