Ocimara Balmant e Paulo Saldana - O
Estado de São Paulo - 16/02/2013 - São Paulo, SP
Para
críticos das cotas, os resultados da pesquisa Ibope não
indicam uma reflexão objetiva sobre essa política afirmativa,
mas surgem de uma reação ao tema da desigualdade. Segundo o
sociólogo Demétrio Magnoli, o resultado do levantamento
é uma mostra de que a imensa maioria dos brasileiros é
contrária às desigualdades sociais e costuma ser
favorável a qualquer política que pareça gerar uma
redução desse problema. “Mas, com isso, aparece uma
forma mágica de acesso que tende a ocultar o debate sobre o
nível das escolas públicas.”
Ele afirma que a
estratégia interessa a políticos de todos os partidos, ao
agradar ONGs e ser garantia de votos. “Uma aparente
solução agrada grupos com muito peso eleitoral. E estar ao
lado de grupos influentes dá melhores resultados políticos
que defender interesses difusos, como a melhoria da
educação.”
Segundo Magnoli,
ter a oposição da população a algum consenso
político é impossível. “Isso só
aconteceria em uma ditadura.” Por isso, até intelectuais
tradicionalmente contrários mudaram de ideia recentemente, diz ele.
“Depois que tudo foi decidido, eles acham melhor não
confrontar o poder na sua universidade. Há uma tendência
histórica dos nossos intelectuais de ser favoráveis ao
poder.”
Único
senador a votar contra a Lei de Cotas federal, Aloysio Nunes Ferreira
(PSDB) diz que “ser contra cotas hoje é quase como ser contra
a cura do câncer”. Quando a lei foi aprovada no
plenário, Nunes afirmou que as universidades teriam prejuízo
em qualidade. “Sou avesso ao método de modelo único
para as universidades, passando por cima de experiências de cada
instituição”, afirma ele, que também é
contrário à adoção de critérios raciais.
“Tem de haver políticas de igualdade, combate à
discriminação, distribuição de renda.
Ações universais, porque o ingresso na universidade, na minha
opinião, não é chave para resolver a desigualdade
social.”
O senador elogiou,
entretanto, a proposta lançada pelo governador Geraldo Alckmin. A
proposta, batizada como Inclusão com Mérito, prevê o
ingresso de parte dos cotistas por um colégio comunitário -
com duração de dois anos. Mas também tem
critérios de reserva de vagas a cada ano, com cotas para
negros.
Já o
diretor da ONG Educafro, frei David Santos, vê os resultados do Ibope
como uma repercussão do debate que a nova lei provocou.
“Quando a sociedade passou a ter informações
qualificadas, equilibradas, sem a emoção de militantes a
favor ou contra, o povo passou a entender a verdade da causa.”

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