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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A professora que luta para valorizar Zumbi em escola de Palmares

20 de Novembro de 2015

Fonte: Uol Educação

"Lá vêm os negros do Muquém. Se fazem tanta questão do quilombo, por que não ficam lá?" Mais de 20 anos depois, frases assim ecoam na cabeça da professora Ângela Maria Nunes, nascida e criada no Muquém, comunidade formada por famílias de descendentes de quilombolas no interior de Alagoas.
Era isso que ela e os amigos ouviam quando iam à escola na sede do município de União dos Palmares, na Serra da Barriga, a mesma região onde por cerca de um século resistiu o Quilombo dos Palmares.
Com a queda do quilombo, em 1695, os negros que sobreviveram se espalharam. Segundo a tradição local, o Muquém surgiu quando cinco irmãs negras desceram a serra, se esconderam na área perto do rio (Muquém viria de amuquecar ou amoquecar, com o sentido de esconder-se, fugir) e ali passaram a viver.
O lugar foi oficialmente reconhecido em 2005 pela Fundação Palmares como uma comunidade de remanescentes do antigo quilombo.
"As pessoas conheciam a história do quilombo e eu também. Mas não importava. Éramos os negros do Muquém, os negros do cabelo duro. Evitavam a gente, e abaixávamos a cabeça", lembra Ângela, descendente direta de Camila Nunes, a primeira das cinco irmãs negras a chegar ao lugar.
Aos 37 anos, Ângela é professora da educação infantil na Escola Municipal Pedro Pereira da Silva, que funciona dentro da comunidade quilombola. A escola tem 382 alunos da comunidade do Muquém e 135 espalhados nos núcleos da Serra da Barriga. Oferece até o 9º ano do ensino fundamental. Não tem telefone, só internet.
A diretora, Maria Luciete Santos, que assumiu o posto em 2013, é entusiasta da história local, mas relata dificuldades. Diz que, embora os jovens conheçam a história, demonstram às vezes desinteresse pelas tradições negras.
"Eles têm baixa autoestima. A gente tem feito um trabalho de autoestima para eles saberem a história e o quanto são importantes. Não dão valor ao que eles realmente são. Eles são remanescentes do quilombo de fato, vêm de uma história das raízes de Zumbi de fato e de direito. Mas não dão valor", conta a diretora.
A Comunidade Quilombola do Muquém hoje abriga cerca de 170 famílias, todas ou quase todas aparentadas, descendentes das cinco irmãs. Alguns membros da comunidade casaram-se com brancos, e há crianças loiras na escola.
Muitos jovens, segundo a diretora, ainda têm vergonha de suas tradições, como a fabricação de objetos de cerâmica, e dizem que não querem sujar as mãos de barro. Na batalha diária para conquistar alunos e pais, a escola investe em aulas e cursos que valorizam a história e tradições negras, como dança do coco e capoeira. Em toda a rede municipal foi incluída a disciplina Cultura Palmarina, com foco na história da cidade e do Quilombo dos Palmares.
Outra descendente direta da fundadora Camila Nunes e, portanto, prima da professora Ângela, é Albertina Nunes da Silva, merendeira da escola. Com o apoio da direção, ela leva para a merenda ecos da culinária negra, como mungunzá (um prato à base de grãos de milho, conhecido em boa parte do Brasil como canjica branca) e pirão de peixe.
Está participando de um concurso de culinária quilombola com uma receita de família herdada de Camila: a cabidela de peixe, um assado de forno em que a cabidela não é feita com sangue, como na galinha, mas com uma mistura de legumes.
Albertina presidia a associação comunitária do Muquém quando a enchente de 2010 veio e arrastou as antigas casas do lugar, inclusive a dela. Só uma coisa ela salvou das águas, o título de reconhecimento da comunidade como remanescente de quilombo, concedido pela Fundação Palmares.

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