22 de Junho de 2015
Estudo mostra que a melhoria da escolaridade de uma população traz benefícios duradouros, que atravessam gerações
Fonte: O GLOBO (RJ)
A melhoria do capital humano de uma sociedade é tão benéfica que seus
efeitos podem ser mensurados até por mais de uma geração. É isso que mostra um
estudo publicado neste mês pelos pesquisadores Rudi Rocha (UFRJ), Cláudio
Ferraz (PUC) e Rodrigo Soares (FGV-SP). Os três analisaram documentos
históricos e os censos de 1872, 1920, 1940 e 2000 para investigar os efeitos no
longo prazo da chegada de imigrantes europeus — em média, mais escolarizados
que a população local — nas localidades que os receberam, ao final do século
XIX, em São Paulo. Os resultados mostram que as regiões que acolheram esses
grupos seguem, até hoje, tendo níveis de escolaridade e renda maiores em
comparação com outras, de mesmas características no passado, mas que não
vivenciaram a chegada desses imigrantes.
Um dos desafios do estudo foi conseguir isolar o efeito da variável
educação trazida pelos imigrantes. Para isso, era preciso comparar regiões com
as mesmas características sociais e econômicas, que se diferenciassem apenas
pelo fato de terem ou não recebido grupos de europeus ao final do século XIX.
Essa separação foi possível porque, ao menos em São Paulo, há registros de 28
áreas que foram escolhidas para receber assentamentos de imigrantes entre 1872
e 1920, enquanto outras de mesmas características não foram selecionadas.
A chegada dessa leva de imigrantes aconteceu antes da industrialização
do país, o que indica que as áreas que os receberam não estavam num estágio
econômico mais avançado. Foi preciso também verificar algumas características
desses imigrantes, como nacionalidade e religião, para ter certeza de que o
melhor desempenho educacional não era explicado pelo fato de os grupos serem
majoritariamente formados por italianos, portugueses, protestantes ou
católicos, por exemplo.
A simples chegada de uma população mais instruída numa área eleva, por
si só, a escolaridade média daquela região. Por isso, não surpreende tanto que,
mesmo em 1940, essas regiões continuassem tendo, por exemplo, taxas de
analfabetismo menores em comparação com as demais comunidades comparadas. O
significativo para a pesquisa foi identificar que essa vantagem educacional na
origem persistiu entre gerações, a ponto de, mais de 120 anos depois, as áreas
continuarem tendo resultados melhores.
A conclusão de que a melhoria do capital humano persiste ao longo dos
anos combina com resultados de estudos feitos em outros países, principalmente
na África, que receberam imigrantes mais escolarizados do que a população
local.
No caso brasileiro, a hipótese dos autores para explicar por que esse
efeito foi tão duradouro se baseia em pesquisas históricas que documentam que
imigrantes de grupos mais escolarizados demandavam, de forma mais ativa, mais
investimentos públicos em educação. Nessas áreas, após a chegada dos
imigrantes, as taxas de frequência à escola e a alfabetização cresceram em
ritmo maior do que nas demais.
A melhoria da escolaridade da população resultou também em
desenvolvimento econômico. Além de demandarem maiores investimentos em
educação, essas comunidades foram mais capazes de fazer a transição de um
modelo agrário para uma economia industrial, que demanda mão de obra mais
qualificada.
Educação não é panaceia. No curto prazo, seu retorno nem sempre é
visível. Mas, de todos os investimentos possíveis de serem feitos no presente,
é o que traz resultados mais duradouros.
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