14 de dezembro de 2014
Sonho de consumo de mães do asfalto, favela oferece serviço noturno para cuidar de crianças
Fonte: O Globo (RJ)
No último mês, a rotina tem sido a mesma para a pequena Letícia, de pouco mais de 1 aninho. A mãe Michele Cunha da Silveira, de 23 anos, leva a menina no colo - acompanhada, é claro, de bolsa com mamadeiras, roupas e brinquedos - até a Creche da tia Vânia, na Rua das Hortências, que fica no Areal, na favela Rio das Pedras. Depois de deixar a filha, Michele segue apressada para uma academia na própria comunidade, onde trabalha das 16h à meia-noite.
- Graça a Deus tenho um lugar, com gente de confiança, para cuidar da Letícia. O pai costuma buscar a menina. Mas só consegue chegar à Creche por volta das 11 da noite - conta.
Realidade ainda distante de muitas mulheres que moram no asfalto, em Rio das Pedras as mães que trabalham à noite encontram Creches noturnas - todas informais - para deixar os filhos. Chamada de mãe por algumas das 17 crianças das quais cuida, a paraibana Vânia da Silva estende o expediente até 1h da madrugada, quando os quatro últimos meninos vão para as suas casas, alimentados e de banho tomado. Uma atividade que divide com as duas filhas, de 18 e 13 anos, quando elas não estão estudando.
- Muitas mães daqui trabalham em restaurantes, mercados, lojas. Os pais também demoram a chegar em casa. Cuido de bebês de 1 ano e até de meninos de 10, que as famílias não querem que fiquem sozinhos quando saem da Escola. Adoro fazer o que faço. Adoro crianças - afirma Vânia, de 35 anos.
Ela cobra R$ 200 mensais pelo serviço, que a ocupa de segunda a sábado. Se for preciso buscar uma criança na Escola, são mais R$ 50. Neste caso, a encarregada é Edivânia, a filha mais velha de Vânia.
Já Cleuza da Cruz, uma goiana de 46 anos que mora em Rio das Pedras há 22, chegou manter o seu Hotelzinho do Bebê, na Rua Estrela D"Alva, funcionando durante as 24 horas. Só que o comportamento de alguns responsáveis levou Cleuza a reduzir o horário. Agora, é de 6h30m à meia-noite, de segunda a sábado.
- Tinha mãe que "esquecia" o filho na Creche. Eu tinha que levar a criança em casa - revela.
O Hotelzinho do Bebê funciona em seis cômodos distribuídos em dois andares. Lá, não faltam berçário nem pula-pula de bolinhas, para acolher 38 crianças, de dois meses a 7 anos - 12 delas só vão para casa entre 21h e meia-noite. Para cuidar dessa turminha, Cleuza tem seis funcionárias. E os preços variam de R$ 150 a R$ 300, dependendo do período e dos dias que as crianças ficam na Creche.
O Hotelzinho do Bebê funciona em seis cômodos distribuídos em dois andares. Lá, não faltam berçário nem pula-pula de bolinhas, para acolher 38 crianças, de dois meses a 7 anos - 12 delas só vão para casa entre 21h e meia-noite. Para cuidar dessa turminha, Cleuza tem seis funcionárias. E os preços variam de R$ 150 a R$ 300, dependendo do período e dos dias que as crianças ficam na Creche.
Em Rio das Pedras, há quatro Creches da Secretaria municipal de Educação - sendo dois Espaços de Desenvolvimento Infantil - para 869 Alunos, que encerram o expediente às 17h. Mas placas instaladas em becos da favela revelam que há dezenas de Creches particulares e informais na região. Na Rua das Camélias funciona a de Josenéia da Silva. Mas, por enquanto, Néia não fica com os pequenos à noite:
- Ano que vem quero ter crianças dormindo. Não gostaria que viessem buscar de madrugada. Os pais podem trazer os meninos quando forem para o trabalho e pegar de manhã.
Em Botafogo, babá no réveillon
A inviabilidade econômica é a justificativa dada pela presidente da Associação Brasileira de Creches e Educação infantil (Asbrei), Célia Maia, para a inexistência de espaços noturnos para acolher crianças fora de comunidades. O normal são as Creches do asfalto funcionarem das 7h às 19h, ou, no máximo, até as 19h30m.
A inviabilidade econômica é a justificativa dada pela presidente da Associação Brasileira de Creches e Educação infantil (Asbrei), Célia Maia, para a inexistência de espaços noturnos para acolher crianças fora de comunidades. O normal são as Creches do asfalto funcionarem das 7h às 19h, ou, no máximo, até as 19h30m.
- O custo é alto e a demanda por Creche noturna é pequena. A cada grupamento de 24 crianças é preciso ter um coordenador pedagógico e mais um Professor, além de três auxiliares. É lei - diz.
Professora de inglês e futura pedagoga, Tass Pereira da Silva, porém, vislumbra um mercado para a Creche noturna nos bairros, devido ao número de mães que trabalham à noite. No fim de 2015, quando concluir o curso, poderá ter a sua:
- Esse é um nicho para ser explorado.
- Esse é um nicho para ser explorado.
Um passo nesse sentido está dado. Tass acabou de transformar a sala de seu apartamento num espaço de estimulação para a criançada, que têm banheiro exclusivo. Com escorrega, desenhos de bichinhos na parede e muito mais, é lá que funciona o Brincar Bilíngue Botafogo, onde grupos de crianças de 1 a 4 anos têm aulas de inglês. Além disso, semana passada, Tass passou a oferecer, na página de moradores de Botafogo e Humaitá no Facebook, um serviço de babysitting, das 20h às 24h, de quinta a sábado, e até na noite do réveillon.
- É um serviço de babá, para os pais poderem dar uma voltinha. Recebo as crianças tanto em inglês como em português. O ambiente é bilíngue - diz Tass, que tem uma filha de 3 anos e oito meses, a Maressa, já fluente no inglês.
Pelo serviço noturno de babá, Tass cobra R$ 49,90 por três horas e R$ 20 por uma hora extra. No réveillon, pedirá R$ 69,90 por três horas.
- Na noite de réveillon, vou ter que tolerar um atraso - brinca ela.
- Na noite de réveillon, vou ter que tolerar um atraso - brinca ela.
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