VICTOR VIEIRA - O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/03/2014 - SÃO PAULO, SP
Apesar do entusiasmo dos pais, grande parte dos especialistas é resistente a antecipar temas adultos - como dinheiro e negócios - para crianças mais novas. O risco, segundo os críticos às transformações dos currículos, é sobrecarregar as cabeças dos alunos e tirar espaço de aprendizados mais importantes, como leitura e matemática básica.
Há consenso de que as bases educacionais da infância interferem na vida adulta. `Mas não é por isso que se deve sair em uma gincana novidadeira atrás de atividades cada vez mais diferentes das já praticadas para garantir o sucesso das crianças quando crescerem`, pondera a especialista em educação Ilona Becskeházy.
Segundo ela, a proliferação de disciplinas diferentes é resultado da falta de referências consolidadas para montar os currículos da educação infantil. `As crianças devem ser acolhidas e respeitadas pelos adultos que as cercam e as atividades mais apropriadas são as que as fazem usar seus músculos e cérebros de forma compatível com sua fase de vida`, afirma.
Marilene Proença, especialista em psicologia escolar da Universidade de São Paulo (USP), também acredita que a abordagem de Educação Financeira e Empreendedorismo, por exemplo, é precoce. `O dinheiro faz parte da vida das crianças, mas faltam elementos para uma compreensão maior`, aponta.
Segundo Marilene, no entanto, a abordagem de alguns temas adultos em sala de aula pode ser positiva. `Depende de como o tema é tratado. Mas acredito que há outros debates melhores, como os de meio ambiente e respeito à diversidade`, diz.
Formação gradual. A diretora da escola Baby Nurse, Susana Lee, admite que ficou insegura ao levar a Educação Financeira para seus alunos. `Mas foi uma boa surpresa. Os meninos apresentaram maturidade para discutir os temas`, relata. As lições aprendidas em sala de aula, destaca Susana, também foram levadas para casa. `Ouvimos relatos de meninos que corrigiram os próprios pais sobre desperdícios de água`, conta.
De acordo com Ana Rosa Orellana, diretora pedagógica da consultoria Dsop Educação Financeira, o trabalho com alunos, que já começa a partir dos 3 anos de idade, é fundamental para combater o endividamento no futuro. `É bem mais difícil retirar vícios dos adultos do que ensinar bons hábitos às crianças. Como a maioria dos pais é despreparada, eles têm dificuldades para ensinar`, afirma.
Outra justificativa é preparar as crianças para reagir ao forte apelo de consumo. `Em uma hora assistindo à televisão ou na rua, já são várias as situações em que se é convidado a comprar`, ressalta./V.V.
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