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terça-feira, 29 de maio de 2012

A capital da pós-graduação
Helena Mader - Correio Brasiliense - 29/05/2012 - Brasilia, BF
Censo do IBGE mostra que o DF é a unidade da Federação com o maior percentual de pessoas em cursos de especialização, mestrado ou doutorado. A quantidade de estudantes matriculados em instituições da capital é maior do que o dobro da média nacional.
A concorrência nas seleções para empresas privadas e a acirrada disputa por vagas no serviço público são incentivos à qualificação constante dos profissionais. No Distrito Federal, onde a renda per capita e os índices de escolaridade são os mais altos do Brasil, as exigências do mercado de trabalho são ainda maiores. Para conseguir se manter na corrida por altos salários, os brasilienses buscam cada vez mais os cursos de especialização.
O último Censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que o DF é a unidade da Federação com o maior percentual de pessoas cursando pós-graduação. Na capital federal, 3,24% da população faz mestrado ou doutorado — mais do que o dobro da média nacional, que foi de 1,5%.
Quem se matricula em aulas de especialização nem sempre busca apenas qualificação profissional. Para algumas categorias do serviço público, há previsão de aumento salarial em caso de apresentação de diplomas de pós-graduação. O salário inicial de um pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (Inep), por exemplo, é de R$ 4.895,26. Se o servidor tiver feito especialização, a remuneração salta para R$ 5.688,26 e pode chegar a 6.924,26, caso o funcionário apresente o título de doutorado. Outro motivo que justifica a busca por especialização em Brasília é o aquecido mercado dos concursos. Em muitas seleções para órgãos públicos, os candidatos ganham uma pontuação extra caso apresentem certificado de conclusão de pós-graduação.
Mas a maioria dos que buscam o aperfeiçoamento quer se qualificar e melhorar de posição no meio profissional. A administradora de empresas Keila Batista, 28 anos, trabalha em uma construtora com atuação nacional que recentemente abriu uma filial em Brasília. Ciente da disputa, ela procurou um MBA em gestão de negócios imobiliários e construção civil e começou o curso na semana passada. “Estou há seis anos na mesma empresa. Já passei pela área de terrenos, pelo setor financeiro e agora estou trabalhando com incorporação. Quero investir na minha carreira e crescer profissionalmente”, diz Keila, que está na segunda especialização. A primeira foi na área de finanças.
A médica Vilany Mendes Félix faz especialização em gestão de saúde
Além dos matriculados em cursos de especialização, os dados do IBGE levam em conta os alunos de mestrado e doutorado. No Distrito Federal, oito instituições oferecem 86 cursos de mestrado e 67 de doutorado — as chamadas pós-graduações stricto sensu. A instituição do DF com mais tradição e credibilidade é a Universidade de Brasília (UnB), que também aparece como o centro de ensino superior com maior número de cursos: 74 de mestrado e 61 de doutorado, além de 29 cursos de especialização lato sensu, com 2.551 vagas.
Controle de qualidade
O crescimento da demanda por cursos de pós-graduação levanta uma preocupação: como ampliar as vagas e manter a qualidade. A presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos, Luana Bonone, critica a “mercantilização da educação” e cobra uma fiscalização efetiva. Hoje, apenas os mestrados e os doutorados, passam por avaliação periódica realizada pelo governo.
“As especializações têm uma demanda alta e se transformaram em algo extremamente rentável. Esses cursos cumprem um papel importantíssimo de aperfeiçoamento profissional, mas não há avaliação e fiscalização do governo federal”, queixa-se Luana. “Entendemos as dificuldades institucionais para avaliar um número grande de cursos, mas isso não justifica a omissão do Estado.”
Segundo o Censo do IBGE, 28.434 pessoas cursam especialização, mestrado ou doutorado no DF. A médica Vilany Mendes Félix, 46 anos, servidora do Corpo de Bombeiros, se aprofunda em gestão de saúde. “Na faculdade, a gente aprende a ser médico, não a ser um gestor. Com qualificação, a gente oferece até um serviço mais humanizado, além de eficiente.”
O administrador de empresas Sérgio Oliveira, 32 anos, faz uma pós-graduação em gestão financeira, auditoria e controladoria. Ele trabalha em uma escola particular do DF, mas se interessa pelo universo das ONGs. “A tendência é o mercado de trabalho se tornar cada vez mais competitivo na iniciativa privada”, justifica Sérgio.
Para saber mais:
Regras para os cursos
Os cursos de pós-graduação são divididos em dois tipos. A modalidade pós stricto sensu é composta pelos cursos de mestrado e doutorado, que devem ser reconhecidos e autorizados pelo governo. A lei determina que o reconhecimento seja renovado periodicamente. A Capes avalia e dá nota aos cursos oferecidos pelas universidades.
A pós-graduação lato sensu, mais conhecida como especialização, é aberta exclusivamente a candidatos diplomados em cursos superiores, mas, ao contrário da pós stricto sensu, os cursos independem de autorização e renovação de reconhecimento. Entretanto, as instituições de ensino superior que os oferecem devem ser credenciadas pelo governo.
Também há regras ao corpo docente de cursos de pós-graduação lato sensu, que deve ser constituído por professores especialistas ou de reconhecida capacidade técnico-profissional, sendo que 50% deles deverão apresentar titulação de mestre ou de doutor obtido em programa de pós-graduação stricto sensu reconhecido pelo Ministério da Educação. Os cursos de pós lato sensu devem ter duração mínima de 360 horas.
Procura crescente
Como o governo não fiscaliza nem monitora os cursos de pós-graduação lato sensu, não existem dados precisos sobre a quantidade de instituições que oferecem cursos em Brasília ou o total de especializações disponíveis no mercado. Mas a reportagem fez um levantamento em algumas das mais importantes escolas em funcionamento no Distrito Federal e apurou que os cursos com maior procura na cidade são os de gestão empresarial, de gerenciamento de projetos, de gestão de pessoas, além do MBA em negócios imobiliários e construção civil.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) oferece 15 cursos no DF e conta com 1,7 mil alunos matriculados. O superintendente da FGV em Brasília, Kleber Pina, afirma que apenas 30% dos estudantes são funcionários públicos. %u201CPela natureza dos cursos, os alunos são profissionais que já estão no mercado. Eles têm, em média, de 30 a 45 anos e ganham em torno de 10 salários mínimos. Esse perfil é bem constante%u201D, explica.
Segundo ele, a demanda cresce cerca de 10% ao ano. %u201CA maioria está em busca de capacitação porque o mercado está cada vez mais concorrido%u201D, afirma. O diretor da FGV, Sílvio Badenes, afirma que a fundação só não amplia o número de estudantes por limitação de espaço físico. %u201CDemanda temos, agora precisamos pensar em reformar as instalações. O mercado valoriza muito as nossas especializações%u201D, garante Badenes.
A diretora executiva da escola de gestão da Fundação Universa, Renata Sanches, conta que a maioria dos alunos da instituição é composta por servidores públicos. %u201CEssa é uma característica da cidade, já que grande parte da população é funcionária do governo. Acredito que está havendo uma profissionalização do setor público, afinal, não basta mais só passar em concurso público. Hoje, é possível fazer uma carreira como servidor e portanto todos estão buscando mais qualificação%u201D, explica. Nos últimos cinco anos, a Fundação Universa formou 10 mil alunos. Os cursos de especialização em Brasília custam entre R$ 10 mil e R$ 25 mil e duram entre 18 e 24 meses.

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