16 de março de 2010
Enquanto o governo enumera medidas adotadas nos últimos meses,
sindicalistas intensificam o discurso em defesa da paralisação; em meio à queda
de braço, grande parte das unidades continua a funcionar, mesmo com a falta de
alguns docentes
Fonte: O Estado de
S. Paulo
Com a maioria das Escolas em funcionamento, a greve dos professores da rede estadual de São Paulo se transformou em uma queda de braço entre o sindicato da categoria (Apeoesp), ligado à Central Única dos Trabalhadores, e o governo do Estado, do PSDB. O movimento grevista foi decretado há uma semana e a principal reivindicação é um reajuste de 34,3%.
Ontem, o secretário da Educação, Paulo Renato Souza, em entrevista ao Estado, disse que o movimento é "eminentemente eleitoral". "É uma politização, uma partidarização muito grande. Essa greve tem característica de ser eminentemente eleitoral". A presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, rebate a não adesão à greve, dizendo ser "mentira".
Na sexta-feira, durante protesto na Avenida Paulista, Maria Izabel afirmou: "Não há problema em dizer que temos um lado político, o lado do magistério".
O Estado percorreu ontem diversas Escolas nas regiões central, norte e leste da capital e não encontrou nenhuma com aulas totalmente suspensas. A maioria dos colégios registrava apenas a falta de alguns professores.
Na unidade mais afetada, a Escola Caetano de Campos, região central, de 23 professores do período da manhã, 9 faltaram. Os alunos não foram dispensados e permaneceram no pátio ou em sala de aula. A Escola Marina Cintra, na Rua da Consolação, havia ficado sem aulas na semana passada, mas retomou suas atividades ontem.
Até a semana passada, a Apeoesp dizia que 60% dos professores haviam aderido à greve. Na sexta-feira, a entidade estimou que 80% da categoria parou para ir à assembleia. Segundo a Secretaria da Educação, apenas 1% aderiu à greve.
Desde o início do movimento, a maior manifestação ocorreu na sexta-feira, em passeata que começou no Masp, na Avenida Paulista, e terminou na Praça da República, onde fica a Secretaria da Educação.
A passeata reuniu 12 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, e prejudicou o trânsito na região central.
Além de professores, a manifestação contou com o apoio do PSTU, da CUT, da entidade sindical Conlutas e do UMES, movimento estudantil que representa alunos do ensino médio.
A Apeoesp planeja uma nova manifestação na próxima sexta-feira, também no Masp.
Confusão
Os pais estão confusos com a situação de greve decretada, mas com pouca adesão. Ontem, Luciene Figueiredo fez questão de ir até a secretaria da Escola Marina Cintra e confirmar se os professores de sua filha estavam presentes antes de voltar para casa. "Na quarta-feira minha mãe deixou a Anne aqui e não tinha aula. Mas moro longe e não dá para buscá-la no meio da tarde." Anne, que tem 8 anos e está no 3.º ano, acabou ficando em uma classe do 2.º ano naquele dia.
A dona de casa Maria José Lima só descobriu que as aulas de sua filha mais velha, no período da manhã, foram normais ao levar a mais nova para a Escola, no período da tarde.
"Não teve aula desde quarta-feira. Não quis acordá-la às 6 horas para chegar aqui e a viagem ser perdida", disse. Maria José reclamou da falta de informação e da greve. "Se o ano já começou assim, não sei como vai chegar no final. Depois no inverno tem a gripe suína e eles param as aulas de novo."
REIVINDICAÇÕES
Salários
Sindicato reclama que os
salários estão congelados há cinco anos e pede reajuste de 34,3% para toda a categoria.
Promoção por mérito
Organismos de classe pedem
o fim do programa, que vai
conceder aumentos apenas
para uma parcela de docentes que forem bem classificados em uma prova.
Prova dos temporários
Para sindicato, a distribuição das aulas para os professores
temporários deve privilegiar o tempo de serviço e não a nota
em prova, como está sendo feito neste ano.
Entrevistas
"É eleitoral e política"
Paulo Renato, SECRETÁRIO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO
É possível dar aumento para professores neste ano?
Não é verdade que não há reajuste. Entre reajuste e gratificações, houve aumento de 36% no ensino fundamental 1 e de 38% no fundamental 2 e médio. A remuneração varia de R$ 1.835 até R$ 6.270, que é o que pode chegar. É o dobro do piso nacional da categoria.
A que o senhor atribui a relação histórica de conflito do sindicato com o governo?
É uma politização, uma partidarização grande. A greve é eleitoral. É político, é para impedir que o Serra seja presidente. Eu perdi o respeito.
As políticas para os professores diminuíram a adesão à greve, já que vários programas levam em conta a assiduidade?
Os professores sabem que precisam comparecer. A carreira está vinculada ao comparecimento. Hoje a assiduidade faz parte da carreira, como o bônus e a valorização pelo mérito.
Houve alguma reunião entre a secretaria e a Apeoesp?
A Apeoesp não procurou a secretaria em nenhum momento.
"Tendência é adesão crescer"
Maria Izabel Noronha, PRESIDENTE DA APEOESP, O SINDICATO DOS PROFESSORES
Por que a senhora acredita que tantos professores não aderiram à greve?
Os números que você tem são uma mentira. Não vou repercutir isso que você está querendo. Tenho números de todo o Estado, cálculo feito com informações de cada subsede da Apeoesp, que faz comando de greve e levanta os dados.
Qual é a perspectiva para o movimento a partir de agora?
Espero ter um canal de conversa com o secretário, para construir um denominador comum até a assembleia de sexta-feira. Quero negociar salário, ter uma proposta concreta sobre a mesa. Mas não sei se isso vai acontecer e acho que a tendência é de a greve aumentar.
Vai haver outra passeata na Paulista?
Não sei dizer. Essa última assembleia decidiu pela passeata, mas em outras ocasiões os professores preferiam ir embora.
Mas o sindicato não teme ser multado novamente?
Não discuto esse tema. Tenho assessoria jurídica para isso
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