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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As escolas que ninguém via

09 de outubro de 2014
Educadores reagem à "tirania do Ideb" e levam gestores a observar a superação mesmo em áreas de baixos índices sociais. Resultado surpreende

Fonte: Gazeta do Povo (PR)

O Ideb – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – tende a se tornar uma sigla tão conhecida quanto INSS, SUS ou IBGE. Sua popularidade é tamanha que o sistema dispensa apresentações. Gestores o utilizam como sinônimo de ensino de qualidade. Governantes fazem dele uma medida de seus feitos. Populares o reivindicam, com a naturalidade com que pedem melhorias no transporte e na saúde.
Curitiba, em particular, tem no Ideb uma de suas bandeiras, não é de hoje. A fama das escolas da capital paranaense vem de 1963, assim que nasceu a rede municipal de ensino. De 2007 para cá, ano em que o índice foi criado, essa popularidade passou a ser quantificada, colocando o município no topo dos rankings educacionais. Algumas de suas escolas – como a São Luiz – se tornaram referência nacional, o que não é pouco em se tratando de um país em que a rede pública costuma ser apontada como problema, não como solução.
No recém-lançado levantamento de 2013, a história continua. Das 179 escolas curitibanas avaliadas pelo Ideb, 63% atingiram as metas ditadas pelo governo federal; 60% melhoraram suas notas; 100 foram além do escore esperado. Na disputada pirâmide das 15 melhores instituições de ensino básico do país, nos anos iniciais, cinco são da cidade. Desempenho melhor entre as capitais, só Florianópolis, que é três vezes menor.
Alto lá
A soma dos dados positivos resultou num consensual conceito “bom+”. Entende-se que o Ideb não só tornou visível os esforços das instituições de ensino locais em cinco décadas de labuta como as ajudou a avançar, por força das metas e da pressão por resultados, tão difíceis quanto os do carnaval carioca. O assunto estaria encerrado aqui, não fosse um detalhe. “O Ideb causa mal estar entre os professores. É uma equação imperfeita”, admite Ida Regina Milléo, superintendente de Gestão Escolar da Secretaria Municipal de Educação.
Ida não é uma desmancha prazeres nem está sozinha: faz coro com uma legião de outros educadores dentre os 10 mil que atuam na rede municipal. O descontentamento com o que muitos chamam de “tirania do Ideb” provocou uma antessala da revolução nos bastidores do setor. Foi há dois anos. Reuniões, cursos, fóruns pedagógicos trouxeram à baila o desconforto causado por classificações como “as melhores” e “as piores”, além do clima de peleja entre as escolas. Conta-se de uma diretora que se apresentava por seu índice. “É uma aberração. O ensino não é uma raia onde correm cavalos”, repetem os ouvidos pela reportagem da Gazeta do Povo.
Para surpresa, essa conversa não se resumiu a ser um dos ecos das manifestações de junho. Virou estatística, tanto quanto o Ideb, por força de dois pesquisadores ligados à secretaria – Waldirene Sawozuk Bellardo e Douglas Danilo Dittrich. Eles fizeram o que deveria ser feito: tomaram o Ideb pelo que é – um índice que deve ser interpretado –, e o cruzaram com outras “variantes”, nome dado a informações com poder de abalar certezas numéricas e evidenciar verdades escondidas. Exemplo – cruzou-se a nota do Ideb com o número de alunos nas escolas que eram beneficiados do Bolsa Família. Levantou-se o nível educacional dos seus pais. A evasão escolar. Ao se fazer justiça à realidade, a conta de menos virou conta de mais.
Este ano – com novos técnicos à frente das análises – a secretaria prossegue a tarefa de não se deixar iludir nem pelas notas altas, acima de 7, nem pelas baixas, na faixa de 4. O resultado é animador. Em paralelo aos “segredos de sucesso” das escolas que conquistaram as melhores avaliações – exemplos a serem seguidos, é claro – pipocam experiências sobre escolas cercadas de situações desfavoráveis, mas que mesmo assim aumentaram entre 0,5 e 1 ponto. A medida dá um chute na canela na meritocracia simplista. “O que importa mais são as histórias de superação”, diz a pedagoga Letícia Mara de Meira, diretora do Departamento de Ensino Fundamental da Secretaria Municipal de Educação – uma das entusiastas da nova régua usada pelos técnicos.
Além de reduzir o mal estar provocado pelos rankings, a política adotada teve um efeito inesperado: revelou à própria secretaria a resistência e a criatividade miúda de diretores e professores que atuam em zonas pobres, violentas e pouco urbanizadas da cidade. Muitas dessas ações eram invisíveis. Por ironia, depois de assombrá-las, o fantasma do Ideb as ajudou a sair da sombra.
Confira gráfico aqui.

>Mandamentos
-Não lamentar: A Escola Municipal Itacelina Bittencourt, no Guaíra, funciona faz 54 anos e atende, “desde sempre”, a comunidade empobrecida do Parolin – a poucas quadras dali. Um dos maiores problemas do colégio é a evasão. Apenas 30% dos 550 alunos que ingressam chegam ao final do ano. Manter a qualidade nessa corda bamba é desafio diário. Em 2008, professores reagiram à pilhagem do Itacelina. Assumiram seus problemas, em busca de saída
-Não isolar: “Questionavam: ‘Nossa, mas você vai deixar a escola aberta para todo mundo?’, mas a verdade é que se você confia na comunidade, a comunidade retribui com confiança e proteção”, garante Joseli Carvalho, diretora da Escola Municipal Vereadora Laís Peretti, que atende 411 crianças. Perceber o papel social da escola no contexto em que está inserida foi fundamental para a comunhão com a comunidade – as melhoras foram consequência da união
-Não desistir: A melhora no Ideb alcançada pela Escola Municipal Centro de Educação Integral David Carneiro é comemorada como vitória pessoal na luta travada contra a aridez da realidade vivida por boa parte dos 420 alunos. “O segredo é não desistir do aluno, não se abalar com a indiferença da família ou dificuldades do entorno. Muitos já são desacreditados, não sonham. E a gente tem que possibilitar que eles sonhem”, decide a professora Rosi Cleia
-Não duvidar: De “Macedinho”, como era pejorativamente conhecida, não há nem sinal: combinando o modelo tradicional de organização e disciplina com o universo das novas práticas pedagógicas, a Escola Municipal Professor João Macedo Filho mostrou a que veio: com 564 alunos, cada vaga é disputadíssima. “Trabalhamos muito para que a comunidade acredite no que fazemos. Hoje, as famílias realmente confiam seus filhos a nós”, comemora a diretora Lidiane Duarte


>A toda prova
Ideb não é palavra final, mas instrumento para trabalho educacional. Veja o que dizem os educadores:
1. A regra – O Ideb é uma equação imperfeita. Só cumpre sua tarefa se for interpretado no conjunto, o que altera a percepção da nota. Deve-se levar em conta: quantidade de alunos com Bolsa Família, rotatividade dos professores, gestão, formação dos pais, quantidade de alunos de inclusão, renda no entorno da escola e formação dos professores.
2. O princípio – Equidade é um conceito chave e serviu de gatilho para a mudança de mentalidade na educação. As escolas não são todas iguais, mas todas têm direito aos recursos para alcançar o aprendizado.
3. A política – Os núcleos de educação não devem ser fiscalizadores do Ideb, mas colaboradores das escolas. Outra medida é levantar microdados sobre os colégios e seu entorno. Essas informações ajudam a praticar o conceito de “território educacional”.
4. A ação – Escolas que crescem pouco a pouco no Ideb apostam em trabalho conjunto, fortalecimento dos conselhos de classe, reforço escolar, intercâmbio de expediências, contraturno, combate à evasão, vínculo com as famílias e com a comunidade.
>Em campo
Lições caseiras
Reportagem da Gazeta do Povo visitou quatro escolas da rede municipal de ensino – escolhidas de forma aleatória dentre os colégios que viveram experiência de “superação”. Em áreas de risco, ou simplesmente com dificuldades de desempenho em edições anteriores do Ideb, essas instituições apostaram nas aulas de reforço, mas também em lições antigas, como a solidariedade, a acolhida e o trabalho em conjunto.



“David Carneiro”: lição de convivência
A conquista não apenas é comemorada como também compartilhada com a comunidade: uma faixa presa ao portão da Escola Municipal Centro de Educação Integral David Carneiro conta sobre a nota obtida no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2013 – 6.4. O crescimento de 0.5 ponto em relação ao Ideb 2011 é razão de orgulho para toda a equipe pedagógica da escola, que já esteve entre os lanterninhas da avaliação e agora figura entre as 30 melhores de Curitiba.
O aumento da nota é reputado ao engajamento dos professores. “Não é apenas uma conquista da escola, é uma vitória pessoal”, declara Rosi Cleia Terezin, 57 anos, 34 anos de magistério no currículo, dos quais 22 dedicados à David Carneiro. O trio responsável pelas turmas do 5.º ano, que participam do Ideb, é formado ainda pelas professoras Daniela Andrade, 36 anos, e Lidiane de Carvalho Lemes, 32. Elas cuidam das turmas de 4.º e 5.º ano, de modo a acompanhar os alunos por dois anos consecutivos e dar seguimento ao processo pedagógico. “Percebemos que seguir a turma tem um efeito positivo, pois fortalece o vínculo com os alunos e permite um aprofundamento na aprendizagem daquele grupo específico. O trabalho não se perde”, explicam.
Outras ações simples e pontuais também são apontadas como razão do sucesso, é o caso dos “aulões” de tema específico, realizados com as turmas do 5.º ano aos sábados para reforçar o aprendizado de conteúdos cuja apreensão é mais difícil. “Eles ficam extremamente ansiosos pelos ‘aulões’, porque é algo diferente da aula de todo o dia”, conta Daniela.
Pouco são flores, no entanto. A CEI David Carneiro está localizada em área de risco do bairro Xaxim. Desafiam a educação fatores de toda ordem: evasão escolar, vulnerabilidade social, baixa autoestima, desinteresse familiar. “O mais complicado é o baixo envolvimento dos pais. Nós orientamos que chamem a criança para estudar em casa, ou pelo menos que perguntem para ela como foi o dia na escola, mas é difícil. Nós tentamos suprir aqui o que falta em casa”, observa Daniela.
Ser professor não é para os fracos. O trabalho de desconstrução de estereótipos e de valorização do aluno como indivíduo, independentemente dos problemas que existam além dos portões da escola é uma constante na CEI David Carneiro. A aridez da realidade vivida diariamente por muitas crianças surge abruptamente, em conversas de corredor travadas com “as tias”. “O segredo é não desistir do aluno, não se abalar com a indiferença da família ou dificuldades do entorno. Muitos já são desacreditados, não sonham. E a gente tem que possibilitar que eles sonhem”, decide Rosi Cleia.
À frente de toda a organização e projeto pedagógico da CEI David Carneiro está a diretora Cristiane Bassan Martins Rocha, ou “Cris Bassan”, como é chamada pelas crianças – ou, ainda, “Cris Maçã”, como confundem os menores. Com 20 anos de magistério, ela sabe que o ambiente oferecido pela escola é fator xis no desenvolvimento educacional. “O lugar tem de ser agradável. Nossos alunos intervêm na estrutura da escola com pinturas, cantos de brinquedos, desenhos e artesanatos, é uma maneira de se identificarem com o espaço”, explica.
Além disso, entender o contexto no qual a escola está inserida ajuda a definir qual é o seu papel social. O da CEI David Carneiro é mais do que receber os alunos matriculados, é também ser um espaço de interação comunitária. Para tanto, a escola abre as portas e convida a comunidade a entrar. A biblioteca, por exemplo, fica à disposição nos finais de semana; há também a promoção de bazares, nos quais produtos de boa qualidade são vendidos por valores simbólicos. A Comunidade Escola David Carneiro também é muito atuante, oferecendo oficinas gratuitas todos os sábados – graças às quais muitos conseguiram um trabalho. “Com essas atividades, a escola consegue uma inserção social importante, torna-se membro ativo da comunidade”, analisa Cristiane.
Veja fotos aqui.


“Laís Peretti”: lição de aconchego
No pequeno hall de entrada, dezenas de crianças acompanhavam as estripulias de três palhaços, arrancando risadas dos pequenos. A apresentação teatral é parte de uma parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, e a cena é ilustrativa do clima da Escola Municipal Vereadora Laís Peretti: uma escola feliz e aconchegante. Certamente, o crescimento de 0.8 pontos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) não encontra justificação exclusiva no aconchego do ambiente escolar mas, sem dúvida, há relação.
“É preciso estabelecer um vínculo entre a criança e a escola. É como se fosse uma extensão da casa, pois essas crianças passam o dia inteiro aqui. Então, elas precisam se identificar com a escola e com os professores. As mães contam que os alunos me amam, mas a educação também exige pulso firme”, conta Joseli Maria Henconttei Carvalho, a diretora com jeito de matriarca. O clima de casa encontrado na escola surte efeito também sobre os professores: a rotatividade é baixíssima e muitos “já criaram raízes”.
O projeto pedagógico praticado inclui práticas de educação ambiental, ciência, artes, movimento e acompanhamento pedagógico em português e matemática. Além disso, há um incentivo extra à leitura, com direito à contação de histórias semanalmente. Os alunos que apresentam dificuldades são encaminhados para a classe especial, na qual recebem atenção individualizada. Para o Ideb, nenhum esforço em especial.
“O compromisso da escola é firmado com a educação infantil e perdura até o 5.º ano. O aprendizado precisa ser cultivado ao longo de toda a permanência do aluno conosco”, explica Joseli. A conquista de 0.8 pontos na avaliação, meta estabelecida apenas para 2017, é atribuída à sintonia e ao comprometimento da equipe.
Em 22 anos, desde sua fundação em 1992, a escola Laís Peretti mudou e viu o seu entorno se transformar também. As rebarbas do tradicional bairro do Pinheirinho, onde está localizada, são marcadas pela heterogeneidade socioeconômica: casebres dividem o muro com residências de dois pisos e carro na garagem. Esse novo perfil socioeconômico impactou a escola. Até alguns anos, a Laís Peretti tinha Comunidade Escola, quando abria suas portas e promovia atividades para toda a comunidade nos fins de semana. Hoje, o cenário é outro.
“Vimos nossa Comunidade Escola esvaziar, mas por razões positivas. A melhoria das condições econômicas permitiu que as famílias tivessem acesso a outras formas de lazer. Essas famílias conseguem acessar outras ofertas da cidade”, observa Joseli.
A melhora socioeconômica de uma comunidade altera o papel social exercido pela escola e é preciso perceber isso. Hoje, a Laís Peretti investe no relacionamento com as famílias de alunos e moradores dos arredores por meio de eventos abertos, como a famosa Noite do Pastel e a tradicional Festa Junina. Joseli lembra que quando começou a promover esses eventos, foi criticada. “Falavam ‘Nossa, mas você vai deixar a escola aberta para todo mundo?’, mas a verdade é que se você confia na comunidade, a comunidade retribui com confiança e proteção”, assente.
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“João Macedo”: lição de planejamento
Instituição que registrou a melhora mais significativa entre o Ideb 2011 e o 2013, a Escola Municipal Professor João Macedo Filho cravou 1.0 a mais, passando de 6.4 para 7.4 pontos. O segredo é combinar o modelo tradicional de organização, disciplina e cobrança de resultado – como tarefas de casa diárias para fixação do conteúdo de sala de aula e avaliações bimestrais – com novas práticas pedagógicas, que desenvolvam outras habilidades e competências, equilibrando fatores cognitivos, psicológicos, culturais e sociais.
A diretora Lidiane Duarte, 45 anos, destaca a importância do trabalho em conjunto. “A escola funciona na sua totalidade. O planejamento é integrado, os professores trocam experiências, compartilham dificuldades. Não fazemos nada específico para o Ideb porque acreditamos em um trabalho contínuo. O que não foi aprendido nos anos anteriores, dificilmente será superado no 5.º ano. A educação exige essa busca constante por novas estratégias de aprendizado desde a base”, explica.
Com o objetivo de diversificar as formas de aprendizagem, o projeto pedagógico da João Macedo Filho inclui projetos variados, como o Ler e Pensar – do Instituto GRPCom –, turmas de xadrez e grupos de leitura e poesia. Atividades que trabalhem a autoconfiança e os interesses genuínos dos alunos, como o Show de Talentos, também são importante fonte de engajamento ao passo que reforçam o papel do aluno no contexto escolar.
“Acreditamos na literatura e na leitura como fator fundamental de aprendizado. Procuramos entender o que eles gostam de ler, qual é o livro que traz ele para a biblioteca. Também investimos em ações que ultrapassam o ensino tradicional, como campanhas de inclusão”, conta a vice-diretora, Vilma da Cruz Brum, 36 anos. Pelos corredores da escola, murais temáticos – “Cabelos de lelês” e “Diga não ao bullying” – repletos de desenhos de criança revelam o esforço pela conscientização sobre respeito e afeto.
Os avanços, claro, foram percebidos pela comunidade. Antes de ser municipalizada, em 2002, a escola era conhecida como “a Macedinho”, hoje é tratada respeitosamente pelo nome completo. “A transformação refletiu na comunidade. Hoje, a escola dá suporte para as famílias no sentido de que elas confiam suas crianças ao ensino público porque acreditam no nosso trabalho”, observa Vilma.
“Foi um longo trabalho de conquista, de fazer a comunidade acreditar no que promovemos. No início, não tínhamos 100 alunos, hoje temos fila de espera e não conseguimos acolher todos. A percepção social sobre a escola mudou muito, hoje ela é cuidada, não é alvo de vandalismo, é protegida”, comemora Lidiane.
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“Itacelina Bittencourt”: lição de persistência
Sempre que alguém visita a Escola Municipal Itacelina Bittencourt, no bairro Guaíra, em Curitiba, a vice-diretora Márcia Dantas Amaral da Silva, 48 anos, repete um ritual: passeia com o recém-chegado. Começa pelo jardim da frente, de onde se pode perceber a arquitetura funcional da década de 1960 – o colégio comemorou 54 anos –; passa pelo hall, no qual chama atenção o assoalho avariado, porém aconchegante. O próximo passo é o grande pátio, com as 13 salas de aula voltadas para ele. Por fim, leva à horta. “Está chegando o dia do nosso sanduíche natural”, festeja, com o indefectível sotaque do Florianópolis. Depois pergunta: “Reparou?”
Impossível não reparar. A “Itacelina Bittencourt” é uma escola bem cuidada. Está sem pichação. E mesmo não tendo mais do que três salas de aula reformadas – o risco de prender o pé no piso de madeira podre é grande – o local está cercado daqueles cuidados, que nem sempre são o forte das instituições públicas. Nem sempre foi assim.
Há seis anos, essa que é uma das mais tradicionais instituições da Zona Sul de Curitiba, passava por uma intervenção da Prefeitura Municipal, o que costuma ser o pior dos mundos. Os pais podiam entrar e levar os filhos para casa, ao bel prazer. Saques eram semanais. Os professores pediam remoção com a facilidade com que se vai à feira. O prédio – já velho – estava sucateado, contrastando com a antiga Vila Guaíra, convertida, na última década, em um reduto da classe média. A entrada das diretoras Raquel Zandomenighi, 34, e Márcia, não veio cercada de fogos de artifício. “Tivemos de ganhar todo mundo – os pais e os professores”, conta a pedagoga Raquel, jovem de porte altivo, enérgica, direta e que é atropelada pelas 550 crianças quando pisa no grande pátio. Eles disputam quem vai abraçá-la primeiro. Festa. Quem pensou em palavrinhas chave como vínculo e afeto, acertou.
Observar essas e outras variantes faz parte da política de avaliação da Secretaria Municipal de Educação. E parece não haver laboratório mais propício para tanto do que a “Itacelina”. Do ponto de vista do ranking educacional – se é que essa expressão faz algum sentido – a escola do Guaíra é deficitária. Passou da avaliação 4.1 em 2011 para 4.5 em 2013. Quando se olha a horta, o recreio e todos os professores posando, orgulhosos, para a foto, estabelece-se a dúvida. A nota não merece ali ser o fiel da balança.
O “Itacelina” tem quase 40% dos seus alunos beneficiados pelo Bolsa Família, logo, empobrecidos, e uma das maiores taxas de evasão escolar da capital, na casa dos 17%. Baixou para 8%. A inclusão de deficientes é alta – não há dados conclusivos, apenas a mordida que Raquel mostra no braço: tinha acabado de recebê-la. O relato das diretoras não deixa dúvida: Dos 30 estudantes que ingressam numa turma, em fevereiro, uma dezena chega ao final do ano. “Assino 3-4 transferências por semana, e 3-4 novas matrículas”, explica Raquel. Ou seja – as crianças estão em vaivém, o que lhes prejudica o aprendizado e o laço escolar. É uma situação incomum – ignorá-la é uma forma de violência não catalogada, mas que amargura quem trabalha em zonas de risco. Ser chamada de “a pior escola” numa divulgação de Ideb pode minar a estima de uma instituição.
A propósito, o lugar pede um estudo de “território educacional”, passível de ser objeto de estudo para futuros educadores. Raquel e Márcia reivindicam mais presença da sociedade do belo jardim da Itacelina para dentro. Há muito o que ver. Embora situada no Guaíra, é a escola da, ainda assim chamada, “favela do Parolin”. No passado, tinha a seu lado outra favela, a do Valetão, hoje extinta. Se sofre estigma? Sim. Seis ônibus, em dois turnos, fazem o transporte das crianças e adolescentes – a distorção idade-série é alta e implica muitos alunos de 14 anos na 5.ª série. A vocação para “escola do Parolin” tem um efeito sobre os moradores do bairro: eles demonstram ter pouca ligação com o colégio, plantado ali, num quarteirão da Rua São Paulo, como um objeto não identificado. “Minha comunidade escolar não está aqui, está no final da Rua Brigadeiro Franco”, diz Raquel, sobre mais essa “solidão” da Itacelina. Os alunos vivem quatro quadras para baixa, na mais antiga ocupação da capital, surgida em meados da década de 1950.
Noves fora, as diretoras pedem parênteses. De 2007 para cá, o Parolin passou por uma reurbanização e reassentamentos. Raquel e Márcia atestam que houve reflexos e que alguns pais – cada vez mais longe da informalidade da favela – cedem à formalidade da escola. No entorno, outro projeto de habitação popular, para moradores do Lindoia, igualmente, trouxe frutos. Com a escola mais organizada, menos professores pediram preferência: são 52 docentes, a maior parte na faixa dos 40 anos e, agora, com tendência a ficar por ali, reescrevendo a história do Itacelina. Hoje há um projeto pedagógico. E ninguém entra sem pedir licença para tirar criança da sala. Tem de pedir licença. Dar um dedo de prosa com quem ensina. Foram só 0.4 décimos a mais em dois anos – mas se aconselha multiplicar esse valor por 10.

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