"Seria mais ou menos assim: é perigoso estudantes saírem de sala para protestar, mas o governo não ver risco algum quando a falta de estrutura das escolas ameaça a integridade de crianças e adolescentes", afirma Jessé Souza
Fonte: Folha de Boa Vista (RR)
23 de maio de 2013
Os estudantes da rede pública estadual já provaram que eles podem ser agentes de transformação. Começou na Escola Gonçalves Dias, quando um movimento foi iniciado e despertou o senso crítico de Alunos de outras unidades, no ano passado. O fato obrigou as autoridades a fiscalizar a situação do arremedo que foi a reforma daquela Escola.
Mais recentemente, os Alunos da Escola Major Alcides reacenderam as chamas da contestação, dando forças para que outros estudantes fossem para a Assembleia Legislativa cobrar seus direitos, principalmente o de estudarem em uma Escola digna.
O governo logo percebeu que o manifesto saiu do controle e que poderia ser muito mais perigoso, pois adolescentes de outras Escolas tenderiam a seguir o mesmo exemplo. E o primeiro “pau mandado” a tentar descaracterizar o movimento chamou os manifestantes de “macacos de auditório”. Não conseguiu intimidar.
A denominação depreciativa e historicamente racista apenas pôs mais lenha na fogueira. Então, não vendo outra alternativa, o aparelho policial do Estado, a Polícia Civil, tratou logo de mandar abrir uma investigação com a finalidade de saber o motivo pelo qual Alunos em horário de aula foram para a Assembleia Legislativa protestar.
Está evidente o objetivo desta investigação, que é frear a sanha de Alunos em protesto, pois este fato poderia desencadear um movimento jamais visto em Roraima, uma vez que toda a rede pública está tomada por algum problema, na Capital e no interior, seja na estrutura do prédio da Escola ou mesmo na forma em que Escolas são conduzidas administrativamente.
Mas nenhuma investigação foi feita quando ventiladores caíram sobre as cabeças de Alunos, curtos-circuitos provocaram incêndio em salas de aula, forros de Escolas ameaçavam a integridade física de crianças e adolescentes, bem como ginásios de esporte com seus tetos colocaram a vida de estudantes em risco.
Seria mais ou menos assim: é perigoso estudantes saírem de sala para protestar, mas o governo não ver risco algum quando a falta de estrutura das Escolas ameaça a integridade de crianças e adolescentes. O mesmo Estado que fecha os olhos para a falta de estrutura das unidades Escolares, é o mesmo que investiga manifestos legítimos de estudantes.
Situação semelhante só se viu na ditadura militar, quando qualquer aglomeração de Alunos era repelida com investigações desse tipo ou reprimida por meio dos aparelhos estatais. E olha que estamos em um país democrático, com uma Constituição cidadã que veio enterrar os entulhos autoritários.
É preciso que o movimento estudantil esteja atento a este momento. Nenhuma ação retrógrada de governo deve minar o poder natural dos estudantes de protestar de forma legítima. Eles representam a aspiração de uma sociedade que não aceita mais governos tiranos.
Jessé Souza
*Jornalista - jesse@folhabv.com.br - witter: http://twitter.com/JesseSouza - Facebook: http://www.facebook.com/jesseroraima
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