Gustavo Gantois - Terra
Educação - 18/02/2013 - São Paulo, SP
O Conselho Federal
de Medicina (CFM) divulgou nesta segunda-feira que o Brasil está
próximo de alcançar a marca de 400 mil médicos,
atingindo a relação de dois profissionais para cada 1 mil
habitantes. Ao contrário do que poderia parecer, o número,
considerado acima do ideal pela Organização Mundial de
Saúde, não significa melhorias no atendimento. De acordo com
a entidade, o problema está na distribuição dos
médicos pelo País.
`Há um
excesso de escolas de medicina formando cada vez mais profissionais. O
problema é que o governo não define critérios
objetivos para atrair esses médicos para os lugares onde eles
são mais necessários. Falta política, infraestrutura
hospitalar, plano de carreira e dinheiro`, criticou Roberto Luiz D`Avila,
presidente do CFM.
De acordo com a
pesquisa Demografia Médica no Brasil, houve um crescimento de 557,7%
no número de médicos desde 1970. Parte desse aumento é
justificado pela maior oferta de cursos de medicina e pelo aumento na
expectativa de vida da população. Segundo a
publicação, a diferença entre saída e entrada
na carreira forma um contingente entre 6 mil e 8 mil novos profissionais a
cada ano.
A
distribuição pelo País, no entanto, mostra que
há problemas na hora de formular políticas que retenham os
médicos no Sistema Único de Saúde (SUS) e, ainda mais
grave, em locais que realmente necessitem deles. As regiões Norte e
Nordeste, por exemplo, contam com 1,01 e 1,23 médicos por cada mil
habitantes, respectivamente. No Sudeste, a proporção é
de 2,67 médicos por cada mil habitantes.
As
diferenças aumentam quando se olha os números por Estado. O
Distrito Federal lidera o ranking, com uma razão de 4,09
médicos por mil habitantes, seguido pelo Rio de Janeiro, com 3,62, e
São Paulo, com 2,64. `Qual o médico que vai deixar uma
capital para se dirigir com sua família para um cidade onde o
prefeito não dá condições ideias para o
exercício da profissão? Ele não vai se mudar para uma
cidade apenas pela promessa de um prefeito de quatro anos de
salário. E quando o governo acabar?`, afirmou D`Avila.
No começo
do mês, o Ministério da Educação anunciou
medidas para controlar a expansão de novas vagas em faculdade de
medicina. D`Avila elogiou o atitude do governo, mas cobrou um
posicionamento mais firme em outros pontos considerados essenciais para o
desenvolvimento do sistema de saúde.
`Só a
faculdade no interior não resolve o problema, senão
teríamos uma faculdade em cada município brasileiro. Eu
elogiei a atitude do (ministro Aloizio) Mercadante. Pelo menos acabou
aquela abertura de escolas para favorecer deputados, grandes grupos de
educação. Mas é preciso uma rede ambulatorial
adequada, serviços de residência médica, um corpo
docente qualificado. Onde vai se arrumar tudo isso? Os estudos estão
mostrando que a escola por si só não fixa`, justificou o
presidente do CFM.
Uma das
soluções propostas é criar uma carreira de estado para
os médicos do SUS nos mesmos moldes do poder Judiciário, com
possibilidade de realizar educação continuada permanecendo no
interior. Outra ideia é oferecer vagas na residência
médica a todos os formandos nos cursos de medicina, além de o
governo chamar para si a responsabilidade pelo direcionamento das
especialidades médicas de acordo com a necessidade de cada
região.
Números
De forma geral,
diz o estudo, os formados optam pelo trabalho nas capitais e cidades mais
ricas. Entre 1980 e 2009, dos 107.114 médicos que se graduaram em
uma cidade diferente daquela onde nasceram, 36,8% retornaram à terra
natal, sendo que as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo
são responsáveis por cerca de um terço desses
profissionais. Outros 25,3% ficaram na cidade onde se formaram.
Ao todo, 55% dos
médicos estão vinculados à rede pública, mas,
segundo a pesquisa, esse contingente é insuficiente para atender a
demanda de 150 milhões de pessoas que dependem exclusivamente do
SUS. Considerandio apenas esses profissionais, há 1,11 médico
para cada mil habitantes que dependem do SUS, bem abaixo da médica
nacional que também inclui os médicos que atendem pelo
sistema privado.
Mesmo a unidade da
federação com proporcionalmente mais médicos atendendo
pelo SUS, o Distrito Federal, tem apenas 1,71 profissional por mil
habitantes quando desconsiderados os médicos da rede privada.
“Do nosso ponto de vista, (a quantidade de médicos no SUS)
é uma presença insuficiente para um atendimento
universal”, avaliou o pesquisador do Departamento de Medicina
Preventiva da Universidade de São Paulo (USP) Mario Scheffer,
coordenador da pesquisa.
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