Cartola - Agência de
Conteúdo - Terra Educação - 18/02/2013 -
São Paulo, SP
Antes, a lei
brasileira previa matrícula compulsória a partir dos sete
anos. A partir de 2006, essa idade foi antecipada para os seis. Em
três anos, o primeiro contato entre criança e escola
deverá ocorrer, sem exceções, ainda antes. Isso porque
a educação infantil, considerada o primeiro passo do ensino
desde 1996, deve se tornar obrigatória no País.
Não que os
pequenos já não frequentassem essas
instituições de ensino. Segundo dados do Censo de 2010,
levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE), das cerca de 5,8 milhões de crianças de quatro ou
cinco anos, 4,6 milhões iam a escolas ou creches (aproximadamente
80%). Mas a Emenda Constitucional nº 59, sancionada ainda em 2009,
coloca como desafio chegar aos outros 20% até 2016. A meta é
que o ensino se torne obrigatório entre quatro e 17 anos. A
universalização se dará sob a responsabilidade dos
municípios, com suporte financeiro da União.
Especialistas
acreditam que, pelo menos quantitativamente, o Ministério da
Educação (MEC) tem grandes chances de alcançar esse
objetivo, graças a programas e ações que estimulam a
construção de creches e pré-escolas, como o
Proinfância, que utiliza recursos do Programa de
Aceleração do Crescimento 2 (PAC 2). Tanto o projeto
arquitetônico quanto os recursos são oferecidos pelo governo
federal. Segundo o MEC, já foram investidos R$ 3,6 bilhões.
Até agora, 813 obras já foram concluídas e outras
2.540 estão em execução. A previsão é de
que, até 2014, sejam entregues 6 mil novas unidades. Em 2011,
segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep), havia 115.223 estabelecimentos de
educação infantil no Brasil - 25,2% deles privados.
Mas todo esse
investimento não significa que o atendimento será de
qualidade - ainda faltará a garantia de continuidade, e essa
é a principal preocupação dos profissionais da
educação. `A construção do prédio
é o mais simples. Tem o depois`, alerta a professora da Faculdade de
Educação da Universidade de Brasília (UnB) Maria de
Fátima Guerra de Sousa. Apesar de se mostrar otimista com a emenda,
já que a previsão em lei abre espaço para uma
exigência formal de recursos, ela ressalta que é preciso
buscar uma solução política e pedagógica o
quanto antes. A professora aposta que, em 2016, a situação
será melhor, mas o caminho até a plena
realização da meta ainda não terá sido
concluído.
`Tenho certa
preocupação com esses planos que o Brasil faz em
relação à educação. Metas que se sabe
que não serão atingidas no prazo estipulado`, critica a
professora da Faculdade de Educação na Universidade Federal
do Pernambuco (UFPE) Ana Carolina Perrusi Brandão. Para ela, falta
uma avaliação realista da possibilidade de cumprir o que
é projetado. O principal problema apontado por ela é o mesmo
referido pela professora da UnB: qualidade. Além de construir,
trata-se também de equipar essas instituições com
ferramentas pedagógicas adequadas e investir na
formação dos professores. `Mesmo que se consiga em termos
numéricos, estamos muito longe de uma qualidade mínima`,
frisa.
A qualidade da
educação infantil dita o desempenho futuro do aluno
As
deficiências do sistema educacional brasileiro para crianças
entre 0 e 5 anos vem gerando também uma grande dívida social,
na visão da professora do Departamento de
Administração Escolar da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) Mônica Correia Baptista. A especialista observa que, quanto
mais pobre a família, menores são as chances de que as
crianças estejam matriculadas em uma instituição de
educação infantil.
No Anuário
Brasileiro da Educação Básica 2012, publicado em
conjunto pelo Movimento Todos Pela Educação e pela Editora
Moderna com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
(Pnad) 2009, a taxa de frequência de crianças de 4 e 5 anos em
creches e pré-escolas era de 92% para a fatia dos 20% mais ricos do
País, e de 67,8% para os 20% mais pobres. A diferença
também se reproduz entre crianças de 0 a 3 anos: 36,3% dos
mais ricos contra apenas 12,2% dos menos favorecidos. `Não podemos
nos esquecer que a creche é um direito previsto na
Constituição. Ainda que a matrícula da criança
não seja obrigatória, sua oferta é
obrigação do poder público`, destaca
Mônica.
Os especialistas
ainda reforçam o fator determinante da pré-escola para o
futuro educacional do aluno. Maria de Fátima afirma que não
investir na educação infantil pode levar a um prejuízo
muito maior. Sem passar por essa etapa inicial, as crianças
estão sujeitas a ter uma diferença no desempenho nos anos
seguintes, já que as aulas de creches e pré-escolas, desde
que não sejam focadas meramente no assistencialismo, contribuem para
a formação básica. `A alfabetização e o
letramento da criança começam nessa fase, a partir do momento
em que há condições de aproximar a leitura e a escrita
como práticas sociais`, diz Ana Carolina. O atendimento de qualidade
pode proporcionar uma experiência positiva na vida escolar de modo
geral e até, conforme a professora da UnB, diminuir as chances de
ocorrências indesejáveis, como gravidez na
adolescência.
Cursos de
pedagogia deveriam ter capacitação específica
Além da
estrutura, a qualidade da educação infantil também
depende da formação dos profissionais que trabalham com essas
crianças. Não se trata apenas de oferecer assistência,
como dar banho, trocar fraldas e supervisioná-las na ausência
dos pais. É preciso formular um projeto pedagógico aliando
lições e brincadeiras. As faculdades de pedagogia e de
educação no Brasil, contudo, carecem de um currículo
específico para essa faixa de ensino. Maria de Fátima
ressalta que a preparação não pode ser a mesma para o
professor que leciona no ensino fundamental, por exemplo. `Os cursos
precisam formar educadores para alunos de 0 a 5 anos`, diz a professora da
UnB. Professora da UFMG, Mônica afirma ainda que a
formação, além de específica, deve ser
continuada. `A carreira do professor precisa de condições
para capacitação permanente`, observa.
A
articulação entre municípios - principais
responsáveis pela gestão da educação infantil
-, estados e União é apontada pelos especialistas como uma
das principais medidas necessárias para cumprir a meta estabelecida
pela emenda, bem como estender o acesso a instituições de
ensino para crianças entre 0 e 3 anos. `É preciso mais do que
garantir vagas. É fundamental que essas crianças tenham
acesso a uma escola de qualidade, com instalações
apropriadas, professores capacitados e uma política de suporte a sua
atuação`, analisa Mônica. Para Maria de Fátima,
a questão passa também por uma mudança cultural em
relação à criança. `Não é um
favor que se faz a essas famílias. É dar a oportunidade a
todo cidadão brasileiro de ter um bom começo de vida. Vai
fazer diferença`, opina.
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